Filosofia com Crianças

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Clica na foto para veres a reportagem fotográfica completa.

Hoje foi assim o nosso dia:

“Três maçãs e a possibilidade de fazer filosofia com crianças”

“O entendimento não deve aprender pensamentos, mas a pensar. Deve ser conduzido (…), mas não levado em ombros, de maneira que no futuro seja capaz de caminhar por si sem tropeçar.” Kant

Filosofia para Crianças ou Filosofia com Crianças? Na verdade esta problemática parece-me menor, apenas importante como tomada de consciência daquilo que é ou deverá ser a prática filosófica com crianças.

Por um lado, Filosofia para…, na medida em que adaptamos o desenvolvimento de competências filosóficas especificamente para as crianças, em analogia ao desejavelmente feito em Filosofia enquanto disciplina do Ensino Secundário. Por outro, Filosofia com…, pressupõe a criação de uma Comunidade de Investigação em que as crianças são coautoras da sua própria aprendizagem e investigação filosóficas, tal como propôs Lipman.

Uma das funções do professor de Filosofia (e não apenas do professor de Filosofia com Crianças) é a de ajudar os seus alunos a despertar a mente e a abrir-se para toda a fascinante complexidade do real que nos rodeia. Como escreveu Nietzsche, “o nosso espanto será infindável desde que tenhamos olhos para esta maravilha”. Quem quiser fazer Filosofia com Crianças e filosofia em geral terá de ter isto em conta. Sem essa atitude infantil de maravilhamento com aquilo que nos rodeia não haverá filosofia nem filosofar porque na verdade não haverá nada sobre o que filosofar. Querer filosofar é uma primeira condição essencial para se filosofar, e muito do nosso esforço enquanto professores (ou facilitadores) de FcC (Filosofia com crianças) passa, exatamente, por procurar desenvolver estratégias e exercícios que motivem as crianças a querer pensar.

O exercício que a seguir descrevo foi realizado numa turma do pré–escolar com um grupo de cerca de vinte alunos entre os 3 e 5 anos de idade.

A sessão de FcC começa, como habitual, com as crianças sentadas em círculo esperando pelas indicações do moderador. Desta vez tínhamos alguns adereços no meio do nosso círculo: três pratos: um vazio e duas maçãs. Em cima de dois dos pratos estavam duas maçãs (uma de plástico e uma verdadeira) e o terceiro prato estava vazio para a maçã imaginada e desenhada por eles. Aos alunos foi dito que não podiam tocar nas maçãs nem nos pratos.

Depois de 2 minutos em que os alunos puderam conversar e refletir em pequenos grupos deu-se início ao diálogo entre todos.

Objetivo: O ser e a aparência e encontrar os critérios de “realidade”.

Para alguém ser capaz de investigar racionalmente um problema filosófico deverá ser capaz de utilizar, entre outras, as seguintes ferramentas cognitivas: especular (avançar teorias, hipóteses e princípios, refletir, debater ideias, relacionar teorias e conceitos, defender ideias com razões, clarificar as suas ideias com exemplos, analisar conceitos, avançar contraexemplos, problematizar e usar terminologia adequada.

– A maçã da esquerda é verdadeira porque tem pintas. (Guilherme C.)

– Mas se pintarmos umas pintas na maçã de brincar, ela não deixa de ser a fingir. (Lara)

-A maçã da esquerda é uma maçã, a outra parece mas não é mesmo. ( Rita)

– A maçã da esquerda é verdadeira porque dá para descascar. (Guilherme M.)

-Como sabes se dá para descascar, não podes tocar? (Maria)

– Para mim, a maçã do prato vazio não existe porque não a vemos.(José)

– Mas ela existe na nossa cabeça. ( Rita)

-Existe alguma coisa que não vemos mas que é real? (Vera)

– Os micróbios existem e não vimos e depois ficamos doentes.(Simão)

Com o relato destas intervenções dos alunos do pré-escolar num Diálogo Filosófico procurei demonstrar que crianças muito novas (entre os 3 e os 5 anos) têm capacidade de investigar filosoficamente um assunto usando algumas das ferramentas mais básicas de investigação filosófica.

Neste pequeno texto procurei ilustrar com exemplos retirados de uma sessão de FcC a forma como crianças são efetivamente capazes de fazer uso destas ferramentas filosóficas e como são capazes de, mesmo que de uma forma ainda muito embrionária no caso das crianças mais novas, pensar e dialogar filosoficamente uns com os outros.

Agora compete-nos a nós, pais, professores e educadores, permitir e ajudar os nossos filhos e alunos a desenvolver não apenas as capacidades cognitivas que referimos mas também as “atitudes dialogantes” necessárias para que essas mesmas capacidades se desenvolvam de forma natural e saudável.

Numa sessão de FcC procuramos que as crianças aprendam a dialogar umas com as outras o que implica que aprendam a ouvir-se calmamente umas às outras, que se habituem a criticar respeitosamente as ideias dos outros e a aceitar que as suas ideias sejam também criticadas, que pensem antes de falar e, muito importante, que estejam preparados para mudar de ideias se lhes mostrarem que não têm razão em vez de se agarrarem teimosamente a elas como um náufrago a uma bóia. Neste ponto particular nós adultos temos muito a aprender com as crianças.

É, sobretudo, nestas “atitudes dialogantes” que a Filosofia com Crianças pode fazer a diferença ao focar a sua prática no diálogo entre os alunos, nas suas próprias ideias e experiências e no cultivo das atitudes adequadas ao diálogo (respeito e interesse pelo outro, humildade, curiosidade, persistência, gosto pelo debate de ideias, etc.) É importante reter que numa sessão de FcC não há professores e alunos, educadores e alunos ou pais e filhos. Há, isso sim, pensadores que em pé de igualdade nada sabem e querem aprender… uns com os outros.

Prof. Renata Sequeira

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