Eça – o retrato intemporal de um povo

   Dando continuidade à notícia publicada na semana passada, e recordando as citações tão atuais de Eça de Queirós, apesar de mais de um século passado, evidencia-se o facto do escritor ser considerado por muitos o Émile Zola português devido à sua denúncia de hipocrisia burguesa e eclesiástica.

    Por vezes, sensual e irónico, outras, realista e intransigente, Queirós é o mais europeu dos portugueses do século XIX.

   Vejamos o que já preconizava o maior romancista da nossa literatura sobre o retrato político português, fazendo-nos parar no tempo como se este teimasse em permanecer inflexível à mudança! 

     “Nada há de mais ruidoso – e que mais vivamente se saracoteie com um brilho de lantejoulas – do que a política.”

    “Os políticos e as fraldas devem ser trocados frequentemente e pela mesma razão.”

   “A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva.  À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (…) todos querem penetrar na arena, ambiciosos dos espectáculos cortesãos, ávidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos da vaidade.”

(in Distrito de Évora, 1867)

   “Nós estamos num estado comparável apenas à Grécia: a mesma pobreza, a mesma indignidade política, a mesma trapalhada económica, a mesmo baixeza de carácter, a mesma decadência de espírito. Nos livros estrangeiros, nas revistas quando se fala num país caótico e que pela sua decadência progressiva, poderá vir a ser riscado do mapa da Europa, citam-se em paralelo, a Grécia e Portugal.”

(in As Farpas, 1872)

 

   “ Aqui (em Portugal) importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssimo, com os direitos de Alfândega: e é em segunda mão, não feita para nós, fica-nos curta nas mangas…”

A professora: Ana Gameiro

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