Eça – o retrato intemporal de um povo

   Parafraseando o poeta Afonso Lopes Vieira (1878 – 1946), Portugal é o “…lugar onde a terra se acaba e o mar começa.” É um país que sempre esteve casado com o oceano, um país de grandes navegadores, de canções heroicas e nostálgicas e de rendilhados em pedra. Um país pacífico, onde os humanos e a natureza aprenderam a viver em harmonia…

   Mas, hoje em dia, neste país à beira-mar plantado, a palavra de ordem mais proferida, desenhada, caricaturada, escrita, soletrada… tem cinco letrinhas apenas: “CRISE”!

   Recordando Eça de Queirós (1845 – 1900), cujas citações são de uma atualidade gritante, apesar de mais de um século passado, eis o que já preconizava o maior romancista da nossa literatura sobre o retrato político português, fazendo-nos parar no tempo como se este teimasse em não avançar e permanecesse inflexível à mudança! 

    “Hoje que tanto se fala em crise, quem não vê, por toda a Europa, uma crise financeira que está minando as nacionalidades? É disso que há-de vir a dissolução. Quando os meios faltarem e um dia se perderem as fortunas nacionais, o regime estabelecido cairá para deixar o campo livre ao novo mundo económico.”  

   “No terreno do dinheiro vence sempre quem tem mais dinheiro.”

   “ Que fazer? Que esperar? Portugal tem atravessado crises igualmente más: – mas nelas nunca nos faltaram nem homens de valor e de carácter, nem dinheiro ou crédito. Hoje créditos não temos, dinheiro também não – pelo menos o Estado não tem: – e homens não os há, ou os raros que há são postos na sombra pela Política. De sorte que esta crise me parece a pior – e sem cura.”                                                                                          

(in ‘Correspondência 1891)

   “Em Portugal a emigração não é, como em toda a parte, a transbordação de uma população que sobra; mas a fuga de uma população que sofre.”  

“Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações. A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.”

(in Distrito de Évora, 1867)  

   Até para a semana com novas citações queirosianas.

Prof. Ana Gameiro

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