Fonte público
Rapazes maus
Daniel Sampaio
Os chamados “rapazes maus” inquietam. Em casa não obedecem, gritam, usam
palavrões e estão sempre a dizer que se vão embora. Na escola, ou a deixam
de vez ou ficam na última fila da sala de aula, nos momentos raros em que
não deambulam pelo pátio. Recusam as regras, insultam os professores e batem
nos colegas. Muitas vezes são temidos, noutras ocasiões são admirados pela
coragem e força física, ou então acabam preferidos pelas raparigas pelo seu
ar sedutor e maior experiência sexual. Têm maus resultados escolares e
muitas faltas, por isso no ano passado repetiram sem sucesso as provas de
recuperação, essa ideia inútil que só serviu para complicar a vida de alunos
e professores. No final do ano, os mais novos reprovaram e mudaram de
escola, os mais velhos foram vender pizzas ou ficaram em casa a dormir.
Os rapazes maus também podem pertencer a grupos juvenis violentos, que cedo
se iniciam no mundo da droga e do crime. Nos actos delinquentes juvenis, são
sobretudo os rapazes que agridem e violentam, porque há muito deixaram para
trás um projecto de vida que passe pela escola e por um emprego aceitável
(cada vez mais difícil de encontrar). Nesses rapazes predominam o gosto pelo
poder e pela dominação, o prazer do humor insensível, a grosseria agressiva
e o permanente desejo do risco, que os faz viver no fio da navalha. Quando
se integram em grupos marginais, são conhecidos pela destreza em fugir à
polícia e pela capacidade crescente na procura de um crime mais arriscado e
mais perfeito.
O problema é que estes rapazes vivem no meio de nós e alguns são colegas dos
nossos filhos e netos. Vemos professores esforçados a tentar que estudem; ou
assistimos a acções de formação, onde psicólogos académicos e inexperientes
falam de “estratégias” para os reintegrar. Esquecem que os códigos éticos
subjacentes nessas “metodologias” não fazem qualquer sentido para esses
rapazes maus, há muito habituados a viver o momento e a conseguir soluções
fáceis e arriscadas, cujo êxito efémero alimenta a continuação a um nível
mais destemido. Quando têm menos de 16 anos, vivem em famílias patogénicas
e, como ainda não entraram no mundo do crime, são encaminhados pelo tribunal
para centros da Segurança Social, casas com escassos recursos humanos e
sobrelotação de jovens, onde é difícil a organização de um projecto de vida
diferente. Mais tarde, voltam ao tribunal por crime já imputável e então o
próprio sistema judiciário alimenta o problema, porque não dispõe de
soluções adequadas.
Precisamos compreender que há dois factores na origem da proliferação
crescente destes rapazes maus: a pobreza e a ausência de cuidados parentais
adequados. É provável que a crise actual vá agravar a pobreza, por isso é
crucial desenvolver novas formas de solidariedade, de que é exemplo a
recente proposta de aproveitamento da comida que sobra, a iniciativa
“Direito à alimentação”.
Como cidadãos, devemos lutar por apoio profissional junto das famílias
incapazes de serem responsáveis pelos seus próprios filhos. Para isso, temos
de aceitar que não existem famílias perfeitas, mas devemos exigir o mínimo
irredutível de cuidados familiares: casa, alimentação e apoio emocional. Aos
governantes, pede-se menos legislação e mais actuação na área, sobretudo no
apoio aos pais problemáticos nos primeiros anos de vida dos filhos. Na lista
de prioridades, estão a educação parental, a intervenção precoce nas
questões de saúde das crianças e uma atenção permanente às dificuldades de
aprendizagem nos primeiros tempos da escola.
É também nosso dever solicitar aos responsáveis melhores condições de
trabalho para os técnicos que se ocupam destes rapazes maus, a quem devemos
antes chamar “rapazes perdidos”.